Na intersecção entre o concreto e a pele, entre a estrutura de uma casa e a curvatura de um rosto, reside um diálogo silencioso que molda quem somos. Recentemente, tive o privilégio de inaugurar a temporada de 2026 do videocast Visões Paralelas, a convite das arquitetas Elisiane Neumann e Fernanda Abarno Peres.
O que começou como um bate-papo descontraído logo deu lugar a uma troca leve e vibrante, onde curiosidades e afinidades ditaram o ritmo da conversa. Entre risadas e insights, traçamos paralelos fascinantes sobre como os espaços que habitamos e a imagem que projetamos para o mundo são, em última análise, a mesma manifestação da nossa identidade e o cenário onde o prazer de viver bem acontece.
A arquitetura e a consultoria de imagem compartilham um propósito que vai muito além da estética: a missão de desvendar quem somos para elevar a nossa autoestima. Enquanto Fernanda e Elisiane criam ambientes que acolhem e celebram a história de cada cliente, meu trabalho como visagista e consultor é encontrar essa mesma essência no espelho. Juntas, entendemos que o design, seja ele de uma casa ou de uma imagem pessoal, só faz sentido quando proporciona o prazer de nos sentirmos, finalmente, em casa dentro de nós mesmos.
A Forma, a Função e a Emoção
Durante nosso encontro, um conceito guiou a conversa: o equilíbrio entre o rigor e a poesia. Na história do design, aprendemos com Louis Sullivan que "a forma segue a função". Na consultoria de imagem contemporânea, essa máxima é absoluta. Uma imagem não pode ser apenas bela; ela precisa ser funcional, estratégica e coerente com a jornada de quem a carrega. No entanto, se parássemos na função, seríamos apenas utilitários.
É aqui que entra o sopro de Oscar Niemeyer. Como gaúcha de Porto Alegre e estudiosa da História da Arte, sempre fui fascinada pela capacidade de Niemeyer de humanizar o concreto através das curvas. "Não é o ângulo reto que me atrai", ele dizia. No visagismo, busco exatamente isso: a estrutura técnica do método francês de Claude Juillard, que me deu a base e a precisão, temperada pela sensibilidade das linhas orgânicas que trazem emoção e identidade. Uma sobrancelha, o corte de um cabelo ou a escolha de uma paleta de cores são, para mim, tão estruturais quanto uma viga e tão subjetivos quanto um pôr do sol no Guaíba.
A Jornada de uma Narradora Visual
Minha trajetória é uma colcha de retalhos tecida com fios de estética, jornalismo e arte. Foram mais de 20 anos como professora na área da estética, uma fase de alicerces sólidos, antes de iniciar minha transição para a Consultoria de Imagem em 2016. E após a pandemia a conclusão em Jornalismo que, não foi um desvio, mas sim o fechamento de um ciclo de comunicação. Afinal, o visagismo é uma forma de jornalismo visual: investigamos fatos (o rosto), buscamos fontes (a história do cliente) e editamos uma narrativa para o mundo.
Nesta conversa no Visões Paralelas, percorremos as referências que sustentam meu olhar. Citamos Umberto Eco e suas obras seminais, História da Beleza e História da Feiúra. Estas leituras acadêmicas, longe de serem apenas teóricas, são o chão onde piso para entender a relatividade estética. A beleza não é um padrão estático, mas uma construção histórica e cultural.
O Espelho como Obra Finalizada
Um dos momentos mais marcantes do nosso bate-papo foi a reflexão sobre o impacto do meu trabalho na sociedade. Ver a transformação da autoconfiança de uma cliente ao se reconhecer no espelho é um fenômeno visceral. É o momento em que a consultoria deixa de ser sobre vaidade e passa a ser sobre autoconhecimento. É a entrega das chaves de uma casa interna que finalmente está pronta para ser habitada.
Acredito, genuinamente, que a entrega de uma grande obra arquitetônica e a revelação de uma nova imagem pessoal guardam um peso emocional semelhante. Ambas oferecem um senso de pertencimento e dignidade.
Um Convite à Reflexão
Ao som de Garota de Ipanema, um clássico da MPB que foi a trilha sonora do episódio, convido vocês a mergulharem nesta conversa. O episódio está disponível e é um convite para olhar para si mesmo não como um objeto a ser decorado, mas como um espaço a ser projetado com intenção, respeito às origens e, claro, um toque de poesia.
A estética e a arquitetura contam a história da humanidade.
Qual história a sua imagem está contando hoje?
✨ Assista ao episódio completo no YouTube: Visões Paralelas - EP 01 (2026)
